Marketing nas escolas não é brincadeira

Texto de Anne Rammi*

Há alguns dias li um texto que tratava da publicidade em escolas. Me pus a divagar se a sociedade brasileira está alerta para esse tipo de prática.

Eu passei por muitas escolas durante a minha vida e tenho até hoje algum contato com o universo e entendo que vivenciei diversas inserções do mundo publicitário corporativo dentro do ambiente escolar. Indiscriminadas, seria a palavra, muito embora pouca gente perceba.

Para tornar este texto rápido e didático, fiz aqui uma lista de todas as situações que já presenciei. Todas acusam a presença de iniciativas comerciais desreguladas dentro da escola das crianças, de maior e menor gravidade, vejam vocês:

- Distribuição de brindes: já vi distribuição de brindes para as crianças, desde brinquedos e amostras grátis de leite fermentado a coisas para as mães, como cremes e xampus. Vão na agenda, vão na mala, são oferecidos para as crianças. É publicidade na escola, deveria ser proibido e pronto.

- Ações de publicidade dentro de eventos: uma vez uma marca de câmeras disponibilizou para uma escola que eu frequentava diversos aparelhos para que os pais filmassem os filhos durante uma festa, um test drive. Igualmente, marketing utilizando o universo escolar para fidelizar clientes.

- Ações pseudo-educativas: equipes de recreação financiadas por uma rede de protetores solares fizeram uma semana educativa sobre os perigos da exposição ao sol, com direito a cartilha de atividades, jogos e, claro, amostra do produto em várias escolas que eu conheço. Eu ganhei as cartilhas de presente de uma amiga professora, que achou que meus filhos gostariam dos desenhos adivinha de quem? Turma da Mônica. Não importa se tem um personagem querido, é ação de marketing dentro da escola.

- Ações pseudo-recreativas: peças de teatro vinculadas a um famoso laboratório de exames de São Paulo circulavam com seus carismáticos personagens infantis por muitas escolas particulares da Zona Sul, e enquanto encantavam as crianças colocavam seus panfletos promocionais nas mochilas. Ao escolher o laboratório onde levaria os filhos para fazer exames, qual mãe não agradaria o pequeno com a presença dos bichinhos que a escola apresentou para ele?

- Financiamento de eventos: em troca de subsídios para algumas festas, escolas aceitam por exemplo, substituir todas as bandeirinhas da festa junina pela logo marca de determinado distribuidor de milho. Não importa se ajudou a escola, é publicidade. Se fosse na escola do meu filho, eu preferia levar o milho eu mesma do que ter as simpáticas bandeirolas coloridas substituídas por aberrações de plástico contaminados com marca.

- Peer-to-Peer: parece uma lenda urbana, mas não é. Grandes corporações, em especial de brinquedos, atuam dentro das escolas de elite, escolhendo as crianças chave (ou seja, aquelas que ditam moda) com o aval e orientação dos professores, orientadores e direção para serem presenteados com determinados brinquedos antes do lançamento, com o objetivo de que disseminem o culto ao brinquedo pelos seus colegas. As mães acham que saíram na vantagem porque o filho levou um brinde para casa. Na verdade ele está sendo usado.

- Livros da Disney na Biblioteca: pode parecer inofensivo, mas a Disney é uma marca comercial, focada em ganhar dinheiro através da venda e licenciamento de seus produtos, desde filmes à mochila que a maioria de nossas crianças leva à escola. Escola blindada para publicidade não aceita conteúdos comerciais PRINCIPALMENTE na esfera didática.

- Músicas da Galinha Pintadinha no Toca CD: é a mesma lógica. O conteúdo educacional – seja um livro, uma música – deveria ser livre de iniciativas comerciais, né? Ou o que há de proveitoso, educacionalmente falando, em assistir o Patati Patatá na escola? A não ser, é claro, para quem vende os produtos do Patati Patatá.

- Somente um revendedor de uniforme: essa é aquela hora em que as pessoas me chamam de radical. Mas tornar o uso do uniforme obrigatório e vincular sua compra a somente um fornecedor nada mais é do que venda casada. Se o uniforme é obrigatório, no mínimo deve haver possibilidade de concorrência, participação da comunidade na escolha dos fornecedores e, acima de tudo, incentivo irrestrito das escolas às trocas desses itens ao fim do ano letivo, bem como outros materiais não perecíveis, como livros didáticos.

- Parcerias com editoras de livro didático: de um modo geral, as escolas que eu frequentei faziam parcerias “antigas”, ou seja, selecionavam títulos de diversas editoras e indicavam a compra dos mesmos. Hoje tenho visto sistemas apostilados completos, que tiram de cena qualquer outro tipo de conteúdo senão aquele que a escola adotou. O que eu acho estranho é, se não do ponto de vista pedagógico, que já é um atentado apostilar a educação, não estamos dessa forma privando a criança de um conhecimento amplo e permitindo que entre em contato com um conteúdo que serve aos interesses de uma única marca? Ainda, eu nunca ouvi falar disso, mas será que ao exemplo dos remédios, as editoras comissionam escolas pela adoção de seus livros? Por que o custo desses sistemas são revertidos aos pais, certo?

- Cantinas com espaço comercial: não compreendo haver uma loja de alimentos dentro da escola. Não compreendo que marcas dos alimentos estejam em cartazes, caixas e, por fim, nos próprios alimentos. Claro está que as crianças precisam comer e que os alimentos precisam ser “vendidos”, eles têm seu preço. Mas colocar o Toddynho ou o Nescauzinho à disposição do aluno é publicidade dentro da escola. Minha cabeça pensa que, se a criança vai tomar leite com chocolate, que seja de fabricação própria, sem sugestão de marca. Afinal, que jeito mais eficiente de fidelizar um consumidor do que estar presente diariamente na hora do lanche, a hora mais feliz?

E vocês, já viveram ou vivem escola como espaço de marketing e fidelização às marcas? O que pensam disso?

*Anne Rammi tem 33 anos, é paulista, paulistana e vegetariana aspirante. Mãe de Joaquim e Tomás, interessada em dar uma geral no mundo, antes que as crianças caiam nele. Artista plástica de formação e cri-cri por vocação, escreve o Super Duper e dá as caras no Mamatraca.

 

As cantinas e a omissão das escolas

Texto de Ana Cláudia Bessa*

Quando eu era criança, lembro de como era muito mais legal comprar o lanche da cantina da escola. Minha mãe raramente me dava dinheiro, e eu ficava com o olho comprido nas pizzas, salgados e cachorros quentes que vendiam na escola. E, já naquela época, era sinal de status comprar o lanche na cantina ao invés de levar da casa. Hoje, como mãe, repito o que minha mãe fazia comigo, não por ter aprendido dessa forma, mas porque realmente, além da economia no orçamento, a cantina da escola não vende quase nenhum alimento ou bebidas saudáveis.

Eu acho que a escola tem que intervir na cantina. A escola é um ambinte educacional. Como as crianças podem estudar ciências, corpo humano, saúde e chegar na cantina e ter aquele monte de porcarias? Por que só os pais têm que dar bons exemplos? E a escola, não? Ali é um lugar de aprendizado, afinal de contas!

Um especialista falou algo que eu achei muito pertinente: comer é a única coisa que a gente faz todos os dias. Comer de forma correta interfere na nossa sobrevivência e qualidade de vida. Usamos mais a alimentação do que a álgebra, do que as regras gramaticais. A escola não pode ficar fora da educação para a alimentação adequada.

Recentemente, uma reportagem informava que os pais estão usando um tal cartão pré-pago para controlar a qualidade do que os filhos comem nas cantinas de algumas escolas que oferecem esse tipo de serviço. Digamos que dos males, o menor. Antes assim do que deixar o consumo livre. Acho que o cartão resolve o problema dos pais, mas deixa a criança na frente de um monte de porcarias gostosas. E ela que se vire para entender que aquilo não pode, mas está sendo oferecido pela própria escola, que deveria educá-la. Os pais precisam cobrar da escola uma posição mais firme com relação àquilo que a cantina oferece.

O problema também mora no fato de que algumas famílias simplesmente mandam o mais prático para a criança comer. A criança não compra na cantina, mas leva um pacote de salgado chulezitos “assado”. Imagina a cara da criança que tem que comer uma maçã? Ok, cada família tem o direito de fazer suas escolhas, mas o salgaditos chulé, além de fazer mal pra saúde da criança que consome com regularidade, demonstra que a família dessa criança não está pensando na coletividade, ou seja, nas outras crianças. Se queremos um mundo mais humano e fraternal, temos que pensar na coletividade, sim.

Algumas escolas fornecem o lanche. Isso melhora um pouco, mas eu mesma, que já tive meus filhos numa escola que fornecia o lanche, tinha sempre que ficar atenta ao cardápio, que incluía biscoito em mais de um dia por semana, sucos de garrafa industrializados, sucos em caixinha (que são ricos em açúcar), pãezinhos ricos em gordura hidrogenada, essas coisas. Se o lanche é supervisionado por nutricionista, qual a justificativa para produtos não-saudáveis e a falta de variedade?

Nas escolas que têm cantina, usar o argumento de que as crianças precisam aprender a fazer escolhas não convence. Imagine se não vamos colocar casaco nos filhos num dia frio porque eles devem fazer suas escolhas! Assim como sair no frio sem casaco interfere na saúde deles, a alimentação mais ainda.

Como mãe, sei como é difícil questionar a escola, mas precisamos encontrar um caminho. As reuniões são momentos perfeitos para tocar em alguns pontos. Tente organizar um argumento curto e certeiro, mas não se omita. Se as escolas hoje nos tratam como clientes, então temos mais motivos ainda para cobrar certas posturas delas. A cantina é uma parte da “prestação de serviços”.

Mas se ainda assim for difícil falar sobre isso, queria lembrar a linda iniciativa de uma menina escocesa, Martha Payne, que resolveu criar um blog, o Never Seconds, onde posta fotos dos lanches para questionar e melhorar a qualidade do lanche fornecido por sua escola. Ela avaliava a qualidade, a higiene e a quantidade de garfadas. Seu blog em pouco tempo teve mais de 1 milhão de visitas e foi apoiado pelo renomado chef Jamie Oliver.

Uma menina, meus amigos. Somos pais, adultos.

Não podemos acuar diante daquilo que é importante para o futuro e para a saúde de nossos filhos.

*Ana Cláudia é mãe de dois meninos, ativista, blogueira, empresária, co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo e idealizadora do projeto Futuro do Presente.

Danone apresenta: Turma da Mônica no mundo dos corantes artificiais

Texto de Vanessa Anacleto*

texto Vanessa monte

Qualquer mortal que vá ao supermercado acompanhado de filhos pequenos sabe o quanto é difícil resistir aos apelos dos produtos alimentícios infantis. O licenciamento dos personagens preferidos pelas crianças é usado indiscriminadamente para chamar atenção e seduzir. Na maioria das vezes, os produtos vendidos com o personagem amado são ricos em gordura, sódio e açúcar. A utilização dos corantes artificiais é ainda mais grave e por mais que eu reflita sobre o assunto não consigo compreender como é permitido que tais substâncias sejam usadas pela indústria com aval do governo. Certo, Anvisa?

Na última semana, por exemplo, encontrei no mercado um produto que é ainda mais agressivo no apelo através do uso de personagens. Uma bandeja de iogurte de polpa de fruta da marca Danone convida as crianças a montar os bonequinhos dos personagens da Turma da Mônica utilizando os potinhos vazios e adesivos coloridos. Interessante, divertido, mas não inofensivo. Acontece que, além dos conservantes necessários para a venda em larga escala, o iogurte da Turma da Mônica contem o corante azorrubina, um corante púrpura avermelhado, o E122, já proibido nos Estados Unidos e objeto de estudo pela Comunidade Europeia por ser nocivo à saúde.

texto Vanessa info nutricional

Tabela nutricional do produto

texto Vanessa azorrubina

Azorrubina (fonte: Corantes Artificiais em Alimentos Unesp)

O corante azorrubina pode  causar reações alérgicas como asma, bronquite, rinite, náusea, broncoespasmo, urticária, eczema, dor de cabeça, eosinofilia e inibição da agregação plaquetária à semelhança dos salicilatos. Insônia em crianças associada à falta de concentração e impulsividade. Reação alérgica cruzada com salicilatos (ácido acetilsalicílico), hipercinesia em pacientes hiperativos. Estuda-se ainda a possibilidade de provocar hiperatividade em crianças quando associado ao benzoato de sódio. (fonte: http://neonutre.com.br/aditivos-alimentares-e-seus-maleficios/)

texto Vanessa anexo

Fonte: European Medicines Agency

Por que tanto corante? Para tornar o produto mais atraente ao consumidor, diz a indústria. Atraente ou irresistível? Muito preocupada com os lucros, a indústria tratou de subverter nossos padrões estéticos de modo a só aceitarmos aquilo que é notadamente artificial. Será que fruta de verdade não basta, ela precisa ser tingida com E122?

O fato de o corante ser permitido no Brasil já é, por si só, razão suficiente para um questionamento perante a Anvisa. E por conter a substância, deixar de informar a quantidade de corante da receita no rótulo, usar personagens queridos das crianças – e dos pais – para incrementar as vendas e ainda criar um jogo tão interessante para estimular ainda mais o consumo da azorrubina ao invés de morango de verdade, o produto da Danone merece mofar nas prateleiras. Será que ainda teremos que conviver durante muito tempo com propaganda para crianças em produtos alimentícios com substâncias alergênicas sem termos informação adequada sobre sua composição?

texto Vanessa cascao

*Vanessa é mãe do Ernesto, blogueira no Mãe é tudo igual, escritora no Fio de Ariadne, opiniática e gosta do que faz.

 

Merida não é a única princesa repaginada

Texto de Renata Kotscho Velloso*

A personagem Merida, do filme Valente, foi oficialmente coroada como a 11ª princesa da Disney. A coroação é o reconhecimento da popularidade da personagem que faz muito sucesso com as crianças, especialmente as meninas.

Acredita-se que o sucesso de Merida venha do fato dela não ser uma princesa tradicional. Ela é corajosa, forte e foge do casamento. Mas, ao coroar Merida princesa, a Disney repaginou a personagem. Ela ficou mais magra, mais sexy e aparentemente mais madura. Também deixou de lado o arco e as flechas que carregava a tiracolo. Veja a transformação.

texto Renata Merida

A mudança não agradou muitos fãs e nem Brenda Champman, diretora do filme, e foi criada uma petição para que a Disney não descaracterizasse a personagem.

Mas Merida não é a única personagem da Disney que foi repaginada recentemente para se adequar a padrões de beleza cada vez mais restritos. Quase todas as princesas passaram por procedimentos estéticos como cirurgias plásticas, preenchimentos faciais, apliques no cabelo e por aí vai. Vejamos algumas mudanças mais radicais.

Cinderela passou umas férias em algum spa médico e voltou com a cara da Taylor Swift. Deve ter feito botox também porque rejuvenesceu alguns anos. Também parece ter usado algum tratamento para clareamento facial.

texto Renata Cinderela

Já a princesa Bela colocou muito megahair no cabelo, operou o nariz e deve ter colocado uns 300 ml de silicone pelo menos em cada seio.

texto Renata Bela

Aurora, a bela adormecida, deve ter dormido bastante na mesa de cirurgia para ficar praticamente irreconhecível; também colocou silicone, operou o nariz, fez preenchimento labial, clareou e colocou aplique nos cabelos. Parece uma BBB depois que sai do programa.

texto Renata Aurora

A mudança mais drástica, porém, sofreu a princesa Mulan. Envelheceu uns bons 10 anos, colocou muito implante nos lábios, operou o nariz, mudou o cabelo e, se você não conhece a história, fica até sem saber que a personagem é oriental. A coitada ficou totalmente desconfigurada.

texto Renata Mulan

A Disney tem direito de modernizar os desenhos das suas personagens? Claro que sim. Mas é importante lembrar que as princesas Disney servem de modelo para milhares de meninas no mundo todo. O que as meninas estão aprendendo é que para ser princesa é preciso ser magra e sensual. Será que é esse o ideal de mulher que queremos passar para meninas em idade pré-escolar?

Felizmente, depois da diretora do filme Valente, Brenda Champman, ter criado uma petição online contra as mudanças da personagem Merida, que a transformavam em tudo o que ela era contra no filme, e ter conseguido mais de 200.000 assinaturas em dois dias, a Disney reconsiderou a sua posição e reverteu o desenho da personagem às características originais. Parabéns à empresa que, pelo menos nesse caso, demonstrou ter alguma sensatez.

*Renata é mãe de 3 meninas: Luiza, Julia e Clara. Médica formada pela Unicamp, em Campinas, mora há um ano com sua família na Califórnia. Sua filha Julia é autora do blog ChefJuju, com muitas receitas gostosas.

Educação alimentar, como lidar?

Texto de Mirtes Aquino*

Eu e meu marido tivemos infâncias bastante parecidas. Nascemos no mesmo ano, em capitais nordestinas, primogênitos de famílias de classe média. Nossas experiências não foram muito diferentes no que diz respeito às brincadeiras, opções culturais, vida escolar etc. Entretanto, no que se refere à alimentação, tirando o fato de nossas mães terem caído no “conto do vigário” das fórmulas infantis e não terem nos amamentado por muito mais que algumas semanas, nossas experiências são as mais diversas. A forma de lidarmos com o alimento na infância chega a ser oposta, mas igualmente problemática.

Desde muito cedo recebi um rótulo bastante comum para as crianças de ontem e de hoje: a menina que não come! Eu simplesmente me recusava a comer. Meus pais primeiro quiseram me obrigar, depois, em pânico, passaram a topar qualquer negócio para garantir que a filha não ficasse de estômago vazio. E assim eu me alimentava basicamente de leite com achocolatado, vitaminas de banana, sucos de frutas e alguns sólidos que eu aceitava – lembro de ter no prato do almoço nada além de um ovo cozido ou uma beterraba pequena cozida. Um pouco maior (uns oito anos) lembro de ser diagnosticada com uma anemia persistente, então começaram também os complementos vitamínicos, inclusive uma beberagem que, dentre outras coisas, incluía ovo de pata cru e biotônico Fontoura. Valia tudo para me fazer comer, inclusive gritos e chantagem. Por muito tempo, a hora do almoço transformou-se no momento mais movimentado do dia, e muitas vezes minha comida era temperada com lágrimas!

Enquanto isso, na casa de meu marido, a realidade era praticamente inversa. Mas ele também recebeu um rótulo bastante comum entre as crianças de ontem e de hoje: o menino que come demais! Ele comia, e muito. E toda a família achava isso ótimo e o incentivava. Algumas de suas histórias viraram lendas familiares, como o fato dele, aos seis anos, se esconder debaixo da mesa para atacar os doces em aniversários infantis, aos nove anos comer “em uma sentada” diante da TV um pudim inteiro que sua mãe havia feito ou de seu tio sair para uma pizzaria com ele e seus três filhos e ter que pedir duas pizzas família: uma para sua família de cinco membros e outra para o meu marido, então um menino de 11 anos. A comida que ele gostava comia até cansar – ou até acabar – e todos os adultos achavam aquilo divertidíssimo.

Crescemos e nossos problemas infantis com alimentação nos levaram a um mesmo destino: adultos que tiveram que aprender a ter uma relação positiva com a comida. Eu comecei a comer e passei a alternar fases de comer compulsivamente com outras de dietas tibetanas para manter o peso até perceber que precisava de equilíbrio à mesa. Ele engordou muito depois que aumentou as horas de escritório e reduziu as de esporte, descobriu a pressão alta e os problemas de coluna e teve que se reeducar para selecionar o que e quanto comer.

E foi assim que viramos pais e nos deparamos com um grande desafio: ajudar nossa filha a construir sua própria relação com a comida.Uma coisa sabíamos: não queríamos ver nossas histórias reproduzidas. Ah, mas como isso é difícil! Passado o período de amamentação exclusiva, ela se recusava a comer, e tivemos que juntar todas as forças para não cair também no conto do vigário da mídia alimentícia e oferecer a ela os tais engrossantes ou o famoso “joga tudo no liquidificador com achocolatado que ela nem vai saber o que está tomando”. Quando começaram as festinhas e as famosas guloseimas, conversamos muito para acertar o passo e explicar a ela que não é porque uma coisa é gostosa que precisamos comer até não aguentar e o quanto é importante saber perceber as sensações de fome e saciedade. Erramos muitas vezes, corrigimos uma porção de coisas, certamente continuamos errando, mas estamos sempre atentos e abertos a melhorar, porque sabemos que a relação que ela terá para sempre com a comida depende muito do que for construído hoje.

E posso dizer que hoje os desafios para os pais são muito maiores. Os rótulos infantis mudaram pouco, ainda temos milhares de crianças estigmatizadas por não comerem ou por comerem demais, mas a oferta de alimentos e nossa cultura alimentar pioraram significativamente. Quando lembro que eu almoçava uma beterraba ou um ovo cozido quando recusava o almoço e hoje a filha de minha vizinha toma um achocolatado de caixinha ou um copo de complemento alimentar enlatado quando faz o mesmo, sinto um arrepio na coluna! O mesmo quando lembro que meu marido comia na frrente da TV o pudim feito pela mãe, enquanto hoje muitas crianças comem pacotes e pacotes de salgadinhos regados a refrigerante. De lá para cá muita coisa mudou! A indústria de alimentos ganhou proporções ainda não vistas e literalmente ganhou os confins do mundo. Puderam produzir mais e mais barato e investir muito mais em publicidade. Assim, ficou muito mais fácil, barato e convincente trocar alimentos naturais ou caseiros por alimentos enlatados, ensacados e encaixados.

Não é fácil, mas eu acredito que podemos evitar velhos erros, barrar a reprodução de rótulos infantis e principalmente encontrar alternativas para a indústria alimentícia. Não é fácil fazer diferente do que vivemos ou do que a mídia nos convence ser o melhor, mas ter uma visão crítica sobre nossas vivências e sobre o que nos chega de informação é uma ótima forma de começar. Minha filha hoje come muito melhor que eu e seu pai na sua idade, e é maravilhoso perceber nossos filhos nos superando!

*Mirtes é economista, funcionária pública e mãe da Letícia, que há 6 anos a ensina que é possível construir um mundo melhor. Escreve no Cachinhos Leitores, seu blog sobre literatura infantil.

Aniversário: quando presente e lembrancinha fazem a festa do consumo

Texto de Camila Goytacaz*

Antes de mais nada, deixe-me contextualizar. Sou Camila Goytacaz, jornalista, 35 anos, mãe de Pedro Luis, 4 anos, e Joana, 1 ano. Se antes da maternidade eu já era uma pessoa sociável, depois de ter o Pedro fiz ainda mais amigos. Nas sessões do CineMaterna, nos parques e praças da cidade, nas aulas de música, dança e outras atividades para bebês, Pedro e eu entramos para várias turmas enquanto desbravávamos São Paulo. Com tantos amiguinhos novos, não é de espantar que aparecessem muitos aniversários. Praticamente todos os finais de semana somos convidados para pelo menos uma (quando não coincidem quatro ou cinco na mesma data) festinha de criança. E, com esta intensidade de eventos, encaramos frequentemente duas rotinas delicadas em relação às festas: uma antes, a do presente, e uma depois, a da lembrancinha. É sobre estas duas pontas da festa que quero falar. Eu poderia escrever sobre a comida, a música, o local, os monitores, poderia contar coisas absurdas e inadequadas que já tive o desprazer de ver nos últimos anos, assim como coisas maravilhosas que me fizeram suspirar. Mas vou me ater a estes dois assuntos que já rendem bem.

O presente

O hábito mais frequente é que os presentes sejam depositados em uma caixa de papelão antes de o convidado entrar na festa. Nesta hora sempre me sinto agoniada, como quem despacha uma encomenda pelo correio: fico insegura se o presente chegará ao dono ou se será interceptado e fico triste por jamais ver a reação da criança (ou, ao menos, da mãe) ao abrir o que escolhi com tanto carinho. Muitas vezes a dúvida persiste para sempre. Em outras, a mãe tem o bom senso de enviar uma mensagem sinalizando que viu, recebeu, gostou. Entendo a praticidade envolvida (é confuso deixar a criança abrir cada um dos presentes durante a festa), mas lamento a frieza adotada. Já o costume menos frequente e mais bonito que conheço começou recentemente na turminha da escola. Junto com o convitinho, veio o recado: “não precisamos de presentes! Traga um brinquedo USADO que seu filho não brinca mais e ficaremos felizes”. Usado? Não preciso sair correndo para comprar? Não preciso quebrar a cabeça e esvaziar o bolso para escolher algo para uma criança que tem tudo? Não. A reciclagem de presentes é simples, divertida e muito prática. Em inglês, é o chamado Re-gift (algo como re-presentear). Eu e Pedro simplesmente vamos até o baú de brinquedos aqui de casa e escolhemos alguma coisa para dar. A embalagem surge da nossa imaginação. É divertido improvisar, fazendo embrulho de papelão pintado com giz de cera ou enfeitando com fitas coloridas. Não temos obrigação de ter a tal etiqueta com prazo de troca nem nada que indique que o produto é novo. Não é novo! A ideia é nova, e esse é o grande barato! Já fomos a duas ou três festinhas assim – porque mães legais copiam mães legais – e tem sido incrível. As crianças abrem os presentinhos que estão sendo repassados sem nenhuma ressalva ou constrangimento, às vezes brincam, às vezes doam para outras crianças, e tudo se movimenta sem que ninguém gaste nem um real. Dá para fazer o mesmo com roupas e até sugerindo aos convidados que tragam presentes feitos pelas própria criança, como desenhos e colagens. Ou fazer como uma amiga, mãe de duas meninas, que disse não ao mundo dos presentes-cor-de-rosa e pediu fraldas e leite para doar a uma creche. Festa assim é boa demais, com menos consumo e mais diversão!

A lembrancinha

Depois de curtir a festa e comer um monte de docinhos, tudo que meu filho não precisa é ganhar um saquinho cheio de balas, pirulitos, chicletes e outras porcarias, disfarçado sob o romântico nome de “lembrancinha”. Aqui em casa o apelido é bem menos atraente: chamo o saquinho de kit-cárie. Não temos pena de arremessar diretamente na lata do lixo, mas dá um trabalhão explicar para a criança que não é legal, faz mal, gruda nos dentes, é péssimo para a saúde, então aqui suplico, ó mãe que está a organizar a festa do seu filho: diga não ao kit-porcaria! Se você quer muito dar algo às crianças na saída, que tal simplesmente encher a embalagem fofa que idealizou com figurinhas coloridas? Ou atacar de mãe-retrô e usar a boa e velha dupla língua de sogra-chapeuzinho de papel? Bolinha de sabão? Confete? Apitos? Nariz de palhaço? Brinquedinhos inofensivos? São inúmeras as possibilidades! Seja criativa e dê algo que faça sentido dentro da ideia original: que a lembrancinha remeta a algo bom da sua festa. Neste quesito já ganhamos lindas mudinhas de plantas, chapéu de mágico e outras coisas lúdicas, porém baratas. Uma doce lembrança, mas sem doce, por favor!

Agora o pior: em algumas festas (as do povo que nunca ouviu falar em consumo consciente), além do famigerado saquinho de porcaria, a criança ainda leva um presente. Tudo bem, se você quiser dar uma coisa singela, que tenha a ver com o tema da festa, vá lá, mas aqui estou falando de utensílios de verdade. Aliás, não tenho vergonha em confessar: muitas vezes o “presente” que ganhamos é melhor do que o presente que demos! Há pouco tempo foi uma mochila, equipada com garrafa plástica, boné, lenço e várias outras coisas, caso o Pedro resolvesse repentinamente ir para a selva. Pelo menos foi o que entendi. Já ganhamos uma necessaire com shampoo, condicionador e sabonete. Sempre, claro, tudo devidamente adesivado com o nome do aniversariante e o tema da festa. Qual a razão de sugerir banho aos convidados? Não sei, até hoje não saquei. Em nossa coleção já temos sacolas, bolsas, cadernos, estojos e todo tipo de tranqueira utensílios temáticos que não precisávamos, mas, claro, aceitamos por educação. Fico me perguntando quantas mães não estão gastando o que não têm para presentear seus convidados com lembrancinhas valiosas e totalmente fora de propósito, como a tal mochila? Sem pensar sobre o assunto, as mães vão na onda, apenas retribuindo o que recebem quando são convidadas. E nessa roda de todos presentearem a todos, o consumismo faz a festa, o exagero rola solto, os fornecedores de porcaria itens lucram verdadeiras fortunas, mas, espere, e as crianças? Será que elas gostam destes presentinhos tão úteis? Necessaire? Sacolinha? Claro que não, né, gente, criança gosta é de brincadeira. Quem gosta de coisas “úteis” são adultos. Quer saber o que a criança faz questão de levar ao sair da festa? É fácil. Pare na porta dos buffets e observe. Elas saem pulando alegremente com uma bexiga nas mãos. Atrás, vêm mães e pais, carregando lembrancinha e presentinho e sentindo saudades das festas da nossa infância, que eram bem mais simples e felizes.

*Camila, 35 anos, jornalista e escritora, é mãe de Pedro Luis e Joana e vive em São Paulo. Desde o nascimento de seu filho passou a querer um mundo com mais brincadeiras e menos brinquedos, mais doçura e menos açúcar. Sobre as aventuras desta família e seus aprendizados, Camila Escreve.

Feiras de doação e de trocas: novas formas de se pensar o “ter” e o “ser”

Texto de Desirée Ruas*

No dia 11 de maio de 2013, em Belo Horizonte, aconteceu a Feira Grátis da Gratidão, um evento onde as pessoas levaram objetos para troca ou doação, como livros, roupas, brinquedos, mudas, músicas, abraços, conselhos e poesia. Uma variedade de itens, materiais e imateriais, à disposição dos visitantes que foram à Praça Floriano Peixoto, no bairro de Santa Efigênia.

Na feira, cartazes convidavam para a reflexão com frases como “tudo na vida é emprestado, não faz sentido estar apegado”. Um resgate de algo muito valioso em nossos dias: a vivência da gratuidade, de experiências e situações que não dependem de moeda. Poder levar para casa um livro que foi deixado por alguém ou simplesmente deixar para alguém um livro ou uma flor… O espírito de doação e de desapego que é a base da feira da gratidão também incentiva repensarmos a sociedade capitalista, da acumulação, da aparência e da embalagem. O que precisa ser desembrulhado, doado, resgatado?

E, para as crianças, qual é o aprendizado de uma experiência assim? Feiras como a mencionada acima, assim como as feiras de troca de brinquedos que ganham força no país, ensinam um outro jeito de “ter” e de “ser”. Crianças cercadas de excesso de bens e que vivem o mundinho do “é meu”, “não pode”, “não empresto” podem aprender o desapego, acompanhando seus pais em atos de doação e solidariedade, em exemplos de combate ao consumismo e de valorização de pequenos gestos e contato humano pleno de significado. Mas sem o exemplo da família não haverá aprendizado verdadeiro; sem o apoio da escola e de todos que as cercam, as crianças não aprenderão, de fato, o sentido da generosidade e do desapego em tempos de bombardeio consumista. Uma desafio para pais e filhos nos dias de hoje.

http://www.youtube.com/watch?v=aCkHI3FTYEg&feature=youtu.be

*Desirée é jornalista e pós-graduada em Educação Ambiental, Agenda 21 e Sustentabilidade. Responsável pela Revista Ecologia Integral desde sua criação em 2001. Educadora ambiental e para o consumo e coordenadora do grupo Consciência e Consumo. Mora em Belo Horizonte e é mãe de duas meninas.

 

 

Uma colcha feita por muitas mães

 

Nós, do Movimento Infância Livre de Consumismo, estamos há um ano cortando e costurando coletivamente uma grande colcha de informações e reflexões sobre infância e sobre as relações entre o mídia e o mercado e as crianças, com seus responsáveis – mães e pais.

Sabemos que esta colcha servirá de proteção para muitas famílias, que será sob seu calor que crianças, adolescentes e adultos poderão fazer leituras da sociedade, da mídia e do mercado, e se proteger de abusos. É com as informações tecidas nesta grande colcha que poderemos escolher e tomar decisões cada vez melhores em relação à nossa mater-paternidade.

Queremos falar com você, mãe;  queremos te explicar porque entre os tecidos que escolhemos estão denúncias contra empresas, marcas e produtos tradicionais. Queremos explicar que quando mostramos uma alternativa, não estamos contra você. Estamos com você!

A briga do Movimento Infância Livre não é com você, mãe, que fornece comida industrializada para seu filho ou que não amamentou exclusivamente até os seis meses (seja por qual motivo for) ou que tem uma babá para cuidar do filho enquanto trabalha, ou que deixa os filhos assistirem muita tevê, ou com qualquer outra mãe, pai ou família.

A nossa briga é com o mercado que não nos avisa que alguns alimentos industrializados, em uma única porção, contêm 75% do sódio que nossos filhos podem ingerir em todo o dia, e que isso pode causar inúmeras doenças em nossas famílias.

A nossa briga é com o “comunicador” que mantém no ar um programa infantil que, a cada cinco minutos, para tudo o que está fazendo – brincadeiras, desenhos – para vender mais um produto licenciado a nossos filhos.

A nossa briga é contra emissoras que inserem frames inconvenientes, conhecidos como propaganda subliminar, no meio da novela, sem aviso prévio.

A nossa briga é com os anunciantes que colocam desenho animado e música infantil em propaganda de produtos para adultos, provocando e reforçando a criança como tomadora de decisões de compra de toda a família.

A nossa briga é com o fabricante que coloca um brinquedinho em seu lanchinho pouco saudável, deixando para nós, mães, a tarefa inglória de explicar e barganhar com a criança que quer aquilo de qualquer jeito, pois “todo mundo tem”.

A nossa briga é com o pediatra que, ao invés de nos ensinar a estimular a produção de leite, recomenda – influenciado por propagandistas – uma fórmula industrializada logo de início, e não avisa que o nosso próprio leite, além de gratuito, fornece uma proteção a nossos filhos que nenhum outro leite fornecerá.

A nossa briga é com a imprensa que, ao invés de apresentar mais soluções para a falta de tempo na hora de ir para a cozinha, indica a papinha industrializada como única saída para o dilema.

Nossa briga não é com você, mãe. Não queremos culpá-la. Mas também não estamos aqui para aliviar. Queremos que você sente conosco, escolha os tecidos, as agulhas, e costure junto com todas nós esta colchão de reflexões, debates, soluções, atitudes, abordagens.

Afinal, para criar nossos filhos em um mundo onde seja mais importante o “ser” do que o “ter” é preciso que cada uma de nós se mobilize. Ao invés de nos acomodarmos em nossa pretensa impotência diante da força de grandes corporações ou conglomerados de comunicação, se cada um de nós der sua pequena contribuição, podemos, sim, mudar hábitos e pensamentos que pareciam imutáveis e costurar esta colcha de aconchego e proteção.

 

Movimento Infância Livre de Consumismo

Estamos consumindo até pessoas

Texto de Renata Kotscho Velloso*

Quando algo nos choca, é importante refletirmos. O portal R7 publicou a seguinte notícia: Famílias ricas contratam pessoas com deficiência para escapar das longas filas na Disney. Num primeiro momento, minha reação foi pensar até onde podem ir o egoísmo e a estupidez humana. Podemos considerar essa notícia como um caso isolado de pessoas inescrupulosas ou podemos entendê-la como consequência natural da sociedade de consumo em que vivemos.

Quase todas as crianças do ocidente conhecem os personagens da Disney. Muitos podem assistir aos filmes e desenhos. Alguns têm acesso a algum brinquedo ou produto licenciado. Uma pequena minoria de crianças privilegiadas pode ir aos parques da Disney.

A criança que pode ir à Disney tem uma oportunidade que pouquíssimas têm. Mas a experiência pode ficar ainda mais VIP. Dá pra ir para a Disney de primeira classe, dá pra ficar nos caríssimos hotéis dentro dos parques e ter o privilégio de entrar no parque antes dos outros mortais. Pagando um pouco mais, também é possível jantar no castelo da Cinderela ou tomar café da manhã com a turma do Mickey. Endinheirados do mundo todo têm ainda à disposição toneladas de tranqueiras da Disney em lojinhas anexas a todos os brinquedos do parque.

Mas a farra não é suficiente para algumas famílias abastadas. A Disney tem um desconforto que não combina com aqueles que se sentem superiores aos outros humanos (mesmo outros privilegiados): enfrentar filas. Dependendo do brinquedo e da época do ano, é possível esperar mais de duas horas na fila de uma atração. Mas aí vem o jeitinho: e se a gente contratar um deficiente físico para furar a fila? Sim, isso é possível e não é ilegal.

Pra mim, furar fila deveria ser crime hediondo, especialmente se você está em um lugar de férias e não em uma situação de emergência. Por exemplo, eu já pedi (olha só, perguntei, não fui furando…) pra passar na frente na fila do banheiro porque a minha filha estava segurando a calcinha para não fazer xixi nas calças. As pessoas que estavam na fila deixaram ela passar. Eu também queria usar o banheiro, mas não aproveitei esse “vácuo”. Ela entrou antes, eu esperei a minha vez. Não, não sou otária, simplesmente não acho que a minha vontade esteja acima das outras pessoas.

Mas as pessoas que contratam deficientes para não pegar fila na Disney não pensam assim. Eles estão tão acostumados a ser privilegiadas em tudo que consideram natural pagar para furar fila. Devem inclusive achar que estão fazendo um bem ao pagar para um deficiente físico ir à Disney. São pessoas desonestas que estão ensinando para os seus filhos que com dinheiro todos os nossos caprichos podem ser satisfeitos. O raciocínio é simples: se tudo está à venda na Disney, por que não consumir também pessoas?

É fácil odiar gente assim, mas vamos refletir se não estamos sendo como elas no nosso dia a dia. Eu poderia dar mil exemplos, mas vocês sabem que não faltam oportunidades de sermos antiéticos e estamos sempre com uma desculpa na ponta da língua para nossas escorregadas.

Termino citando o professor Antonio Cândido de Mello e Souza: “Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz, como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida”. Essas pessoas acham que compraram tempo. Que tolas! Perderam horas de conversas com seus filhos nas filas, perderam a chance de conversarem sobre o que cada um tinha sentido e aprendido no passeio. Ficaram apenas com o show frenético de cores e luzes e com o gosto amargo de estarem ensinando a explorar a tragédia alheia.

*Renata é mãe de 3 meninas: Luiza, Julia e Clara. Médica formada pela Unicamp, em Campinas, mora há um ano com sua família na Califórnia. Sua filha Julia é autora do blog Chef Juju, com muitas receitas gostosas.

 

Como ser mãe em uma época em que impera a lei do menor esforço?

Texto de Daniele Brito*

Não tenho a obrigação de ficar calada. Ninguém tem a obrigação de concordar. Nasce a polêmica.

Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente, sabe que não gosto de estar envolvida em assuntos polêmicos, que geralmente entram em combustão com argumentos muito rasos para sustentar uma ideia, uma opinião. Não tenho tempo nem estômago para administrar isso.

Muita gente deve ter uma ideia equivocada sobre mim pelo fato de eu escrever sobre maternidade e postar muitas coisas relacionadas a isso na fan page do blog. Devem me achar uma super mãe, aquela que está acima do bem e do mal, que certamente não reclama de nada e que vive eternamente feliz.

Não gosto desse rótulo e muito menos o reivindiquei pra mim.

Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente, sabe que sou uma mãe em transformação, ou melhor, uma pessoa em transformação. Escrevo mais sobre meus erros que sobre meus acertos. Escrevo ainda sobre as coisas que descubro, que me fazem entrar numa catarse sofrida e me modificam. Como mãe e como ser humano.

Fui mãe pela primeira vez em 2003. Não tínhamos redes sociais e as informações estavam todas compiladinhas em portais www. Ainda assim, procurei me cercar de uma quantidade gigantesca de informação. Fiz minhas escolhas baseadas não só nessas, mas em vivências familiares.

Como mãe, fui eu quem decidiu o parto. Desconhecia o termo violência obstétrica, achei injustas as intervenções no primeiro parto (natural), o descaso dos profissionais de saúde que me cercavam, mas nunca me ocorreu que nós – a sociedade – teríamos argumentos e força para lutar contra um modelo obstétrico em vigor há pelo menos um século. Chorei ao saber da episiotomia, mas ingenuamente, achei que fizesse parte do pacote. E contra aquilo não me voltei.

Como mãe, fui eu quem decidiu não perseverar na amamentação dos dois filhos! Quem me vê defendendo ferrenhamente a amamentação prolongada acha que amamento meus filhos até hoje! A mais velha mamou até os quatro meses, quando acabou minha licença-maternidade. Ouvindo conselhos do pediatra e de posse de informações equivocadas em revistas, julguei ter feito a minha parte. “Mamou o suficiente”, dizia. O segundo, querendo amamentar até os dois anos ou mais, com leite suficiente pra isso, fui mal orientada por um profissional da saúde. Meu filho tinha refluxo e eu, hiperlactação. Ele não conseguia mamar e eu chorava. O pediatra deu o diagnóstico: manha. E eu sucumbi ao fracasso. Tendo refluxo, nenhum outro leite seria bom pra ele como o meu.

Até bem pouco tempo – pouquíssimo tempo, aliás – tinha o maior preconceito contra a amamentação prolongada. Não sabia que era possível amamentar durante a gestação, muito menos que mulheres eram capazes de nutrir dois filhos em idades diversas. Meu desconhecimento me levou a falar muita besteira.

Como mãe, fui eu quem optou pela combo chupeta + mamadeira, reproduzindo um padrão de vivência familiar. Eu usei. Todos os meus irmãos usaram. Ninguém morreu, veja que beleza!

Como mãe, fui eu quem optou por comidas prontas que facilitariam a vida doméstica. Diminuiriam meu cansaço e sobraria mais tempo pra mim e para minha filha. Com o segundo, a coisa foi diferente. Só não sabia que seria possível revolucionar geral com a comida servida a todos nessa casa. Mudança de hábitos, consumo consciente.

Como mãe, usei de recursos que aprendi ainda na infância, como gritar e dar palmadas para dar limites e mostrar a minha autoridade de mãe, por medo de ser permissiva e omissa. Só não sabia que, com isso, estava apenas ensinando o descontrole e a falta de assertividade em resolver as querelas domésticas. Desconhecia o poder da disciplina positiva.

Essas são as minhas escolhas. Não é porque as fiz que elas estão certas.

É muito cômodo escolher o caminho fácil quando não temos informação ou quando elas nos chegam de forma parcial. E, naquela época, eu queria me cercar de facilidades.

O que estava por trás de todas essas minhas escolhas? Aprendi a me fazer essa pergunta.

Existe mesmo livre escolha?

O mercado, através de suas peças publicitárias, nos bombardeia com mensagens que nos mostram que não somos capazes, que não conseguiremos dar conta. Que precisamos de um auxílio, de um produto que facilite nossas vidas. Pode ser de bisturi a macarrão instantâneo.

Encarar o meu papel de forma consciente exige um esforço contínuo. Procuro me cercar de informação não pasteurizada, que não queira me agradar, mas que me confronte com meus próprios medos, com minhas fraquezas.

Confirmar os vínculos com meus filhos exige de mim compromisso. Mudar, quebrar paradigmas pode significar sofrimento, MAS também pode ser um antídoto, um alento. Finalmente, sair da caverna é penoso, mas é libertador.

* * * * *

Hoje, num desabafo, contei algo que vem acontecendo na casa da minha vizinha. Não nos conhecemos. Nem mesmo sei o seu nome. Coisas da vida moderna.

Sua bebê nasceu no começo do ano e só sei que é uma menina, pois vejo no varal roupinhas cor de rosa. Desde então, ouço seus choros e sua mãe falando em tatibitati. Bate aquela nostalgia! Como é bom bebê novinho em casa!

Um dia publiquei na fan page que, quando a bebê chorava prolongadamente, eu colocava a mão na parede e dizia mentalmente “Calma, amiga. Vai passar. É só uma fase.” De lá pra cá, tenho ouvido muitos gritos. Descontrolados. Altos.

Conversando com meu marido, disse que estava com pena dela. Relembramos juntos vários momentos difíceis e recordamos do tempo que achávamos que isso nunca teria um fim. Até então, não sabia que os gritos eram direcionados à bebê. Imaginei que ela gritasse com as paredes, com o marido, com a babá.

Pontualmente, a bebê acorda às 00:30. Suponho que seja para mamar. Outro dia, então, não só ouvi os gritos, como pude discernir o que exatamente aquela mãe estava falando. Mandou a bebê – que não deve ter seis meses – calar a boca várias vezes. Mandou parar de manha. Uma adulta mandando uma bebê parar de manha.

E foi isso que me deixou triste, que me fez perder o sono. Muita gente mostrou preocupação com a mãe, que deve sim estar passando por um momento difícil, que deve, inclusive, estar com depressão pós-parto. Que seja. Afinal, sabemos que amor não se impõe nem se decreta. Se constrói. Mas na hora, naquele momento, só consegui me preocupar com a criança. E se os gritos forem acompanhados de outras formas de violência? Liguei as pecinhas e deduzi (veja bem) que há tempos essa bebezinha recebe ordens para se calar, para lidar sozinha com sua natural imaturidade. A mãe é adulta e dispõe de vários recursos para procurar ajuda, mas quais recursos a bebê possui?

Na minha fofoca matinal, escrevi algo sobre não estarmos preparados emocionalmente para ter filhos: as pessoas querem um filho, mas NÃO querem passar pelo processo. Querem um filho, mas não querem um parto. Optam pela cesárea. Querem um filho, mas não querem amamentar. Optam pelo leite artificial. Querem um filho, mas não querem cuidar. Contratam uma babá (que durma no quarto, inclusive). Querem um filho, mas não querem trabalho na hora de alimentá-lo. Optam pela comida industrializada. E ainda reclamam.

De fato, não gosto desse coitadismo materno. Somos da geração do menor esforço, do prazer instantâneo (como o macarrão), do prazer individual. Não queremos problemas, queremos resultados. A coletividade nos assusta. O outro não interessa. Agimos como eternos garotos mimados, num ciclo aparentemente inquebrantável da infantilização da vida adulta.

“Sentir-se ofendido é uma forma de negação que nossa cultura impôs com grande êxito”, como bem salienta Sergio Sinay.

A maternidade não pode ser vista como satisfação imediata de prazeres só porque a fantasiamos como um simples exercício de manipulação de um painel de controle.

Queremos as facilidades.

Dizem, entre sorrisos e músicas alegres nos comerciais da TV, que não precisamos de regras para criarmos nossos filhos. Como se isso pudesse ser de alguma forma libertador.

De fato, não precisamos de regras.

Precisamos de compromisso, responsabilidade, cumplicidade e ética.

*Daniele tem 32 anos e é estudante de Direito, mãe da Bia, de 9 anos, e do Otto, de 4, mora em Florianópolis/ SC e é autora do blog Balzaca Materna.